A Gênese de uma Fake News: Como a Época Transformou um Despachante em Lobista

Época chama despachante de lobista, com base em “interpretação” falaciosa de informações fornecidas pelo MRE.

A propagação de notícias falsas é um problema grave do nosso tempo, mas, ao contrário do que dizem os grandes veículos tradicionais, não se restringe a blogs ou “gabinetes” do amor e do ódio. Propaganda e desinformação estão por todos os lados e a principal diferença entre os grandes e os “independentes” é a sofisticação de suas redações. As “agências de checagem” apontam o dedo sempre na mesma direção, esquivando-se de criticar a desinformação propagada pelos grandes veículos, que são, em grande medida, seus financiadores, senão seus proprietários.

A Criação da Mentira a Partir de Fatos Verificáveis

A revista Época publicou, na coluna de Guilherme Amado, reportagem que afirma que “lobista da Taurus já esteve no Itamaraty sete vezes em 2021”. A peça foi feita com base em informações transmitidas pelo Ministério das Relações Exteriores à deputada Talíria Petrone (PSOL), que foram objeto do Requerimento de Informação da Câmara dos Deputados (RIC) 219/2021.

Segundo a reportagem, “Rafael Mendes de Queiroz, lobista da Taurus e da Companhia Brasileira de Cartuchos, já esteve pelo menos sete vezes no Itamaraty em 2021 para reuniões no ministério” [Grifo meu]. De fato, os registros de entrada e saída do prédio mostram que Rafael de Queiroz esteve na sede do MRE nas datas mencionadas na reportagem: em 4, 9 e 18 de fevereiro, e em 5, 8, 11 e 18 de março, conforme informado pelo Itamaraty em resposta ao requerimento da deputada. A reportagem não informa, no entanto, que as durações de cada uma dessas visitas, incluindo o percurso da portaria ao destino e de volta à portaria, foram, respectivamente, 8 minutos, 6 minutos, 6 minutos, 6 minutos, 7 minutos, 11 minutos e 5 minutos. Os horários de entrada e saída foram informados pelo MRE em sua resposta ao requerimento de informação.

Fake News da Época – Entregador de documentos vira lobista de empresa.

O suposto lobista entrou e saiu tão rápido do prédio por uma razão simples: não houve reunião alguma. Trata-se, na verdade, de representante da empresa que vai regularmente ao Itamaraty levar documentos relacionados a processos de exportação. Entra, entrega, e sai. A resposta do MRE não detalha a razão das visitas, o que ficou a cargo da imaginação dos jornalistas, e o nome de Rafael de Queiroz só foi incluído por ter sido expressamente enumerado no requerimento da deputada Petrone.

A notícia de que ele participou de “reuniões no ministério” foi inteiramente fabricada. Dizer que esteve lá para fazer lobby é mentira.

A Fonte dos Dados: Requerimento de Informação da Câmara (RIC 219/21)

Órgãos públicos como o Ministério das Relações Exteriores são constantemente chamados a prestar informações sobre suas atividades, por meio de diversos mecanismos de transparência, entre os quais estão várias formas de requerimentos de informação. Tais requerimentos podem vir da Câmara dos Deputados (RIC), do Senado Federal (RQS) ou mesmo do público em geral, que pode usar o Serviço de Informação ao Cidadão (SIC) para obter informações de órgãos públicos, inclusive de forma anônima.

Esses serviços são rotineiramente usados por políticos e jornalistas, para monitoramento de ações do governo, e por indivíduos de todo tipo, que em muitos casos abusam dos propósitos do sistema e o utilizam para fins estritamente pessoais, como apoio para pesquisas acadêmicas, satisfação de curiosidade, assédio a órgãos e funcionários, e, dada a possibilidade de consultas anônimas, para espionagem.

Os órgãos públicos são obrigados a responder, sem nada omitir, exceto pelas exceções previstas na Lei. Cabe aqui anotar que cada requerimento de informação, por mais simples que seja, pode movimentar dezenas de funcionários e ocupar inúmeras horas de trabalho, pois os pedidos são distribuídos internamente e circulam até que toda a informação desejada tenha sido compilada, verificada e submetida a análise de segurança, para eventuais vetos previstos em Lei.

No caso da matéria da Época, os dados foram obtidos por meio do RIC 219/21 [ver trâmite], que continha apenas duas perguntas [ver texto integral do requerimento], que destaco adiante:

Pergunta 1: “Solicitamos os registros dos horários de entrada e saída dos senhores listados abaixo, no período compreendido entre 1° de junho de 2020 e a presente data, neste Ministério. […]” 

RIC 219/21

Pergunta 2: “Solicitamos os registros dos horários de entrada e saída dos/das representantes das seguintes empresas, no período compreendido entre 1° de junho de 2020 e a presente data, neste Ministério. […] Favor indicar o nome dos/das representantes.”

RIC 219/21

Como mostrei acima, a revista usou o número de visitas de Rafael de Queiroz ao Itamaraty para afirmar que um “lobista […] já esteve pelo menos sete vezes no Itamaraty em 2021”. Os dados informados pelo MRE, no entanto, refutam essa hipótese, pois as entradas e saídas desse indivíduo são tão rápidas que seria impraticável fazer lobby do que quer que fosse.

Resposta à pergunta do RIC 219/21 relativa a visitas de Rafael Mendes de Queiroz ao MRE.

Não é a primeira vez que fake news ou notícias distorcidas são criadas a partir de informações factuais transmitidas pelo governo. Eis aqui outro exemplo, desta vez do Estadão, que em junho de 2020 publicou matéria sobre um suposto “lobby das armas”, usando também dados fornecidos à Câmara dos Deputados, naquela ocasião solicitados pelo deputado Ivan Valente (PSOL). Novamente vemos Rafael Mendes de Queiroz chamado de lobista, como se vê no trecho abaixo:

As entradas e saídas de advogados e empresários nos palácios e ministérios resultaram numa flexibilização sem precedentes no controle da produção de revólver, fuzis e projéteis. Pelo menos 16 desses encontros de lobby registrados ocorreram em semanas em que o governo publicou portarias e decretos para atender demandas dos representantes das empresas. O mais assíduo deles é Rafael Mendes de Queiroz, da Taurus e da Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC). Oficialmente, ele participou de 46 encontros com autoridades, a maioria na Defesa e no Itamaraty.

“Lobby das armas se reuniu 73 vezes no governo federal”, Estadão, 23 de junho de 2020.

Noto, por fim, que trabalho desde janeiro de 2020 na Divisão de Produtos de Defesa (DIPROD) do Ministério das Relações Exteriores, unidade responsável pelo setor de produtos de defesa e, consequentemente, por fazer a interlocução do ministério com empresas do setor. Em todo esse período, não me lembro de ter ouvido falar em Rafael de Queiroz, que sequer é recebido por diplomatas, visitando o MRE com frequência para entregar documentos relativos a trâmites de processos de exportação.

*Versão compacta desse artigo foi publicada originalmente na newsletter Fuga para a Realidade.

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Autor: Cesar Nascimento

Cesar Nascimento é diplomata. Instagram/Twitter/Telegram/LinkedIn/Revue: cesarapenas

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