Cegos pelo Amor à Narrativa

Muito se fala hoje sobre “guerra de narrativas”. Verdadeiramente, estamos vivendo cada vez mais submetidos a versões parciais e distorcidas da mesma realidade subjacente. Claro que cada grupo de interesse ou guru ideológico proclamará que a sua narrativa é a verdadeira, a que melhor corresponde à realidade. Sabemos que não é assim. Ou não sabemos? Penso que o problema é mais grave. Dou um exemplo.

Ontem começou a circular no Twitter uma foto de uma pequena manifestação em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, em que uma dúzia de pessoas com bandeiras do Brasil protestavam contra o lockdown na cidade e pediam acesso ao “tratamento precoce”. Até aí, nada. Ocorre que alguém decidiu descrever a foto como se os manifestantes estivessem prestando continência a “uma caixa gigante de cloroquina”, algo que a imagem não mostra e que, portanto, não pode ser relatado a partir dela.

Basta olhar com o mínimo de atenção para ver que a foto mostra um homem com as mãos nos bolsos olhando para outro que segura um cartaz representando uma caixa de cloroquina, talvez o movendo ou posicionando próximo a um poste. Ao lado do primeiro homem há outro, de costas para o cartaz. Todos as outras pessoas retratadas na imagem parecem estar pensando em outra coisa. Em face dessa cena, o sujeito tuitou que a foto mostrava que “manifestantes em posição de sentido prestaram continência para uma caixa gigante de Cloroquina”, o que foi logo replicado em vários sites de propaganda da esquerda (e.g. DCM, Brasil247, Forum), com a chamada geral de “bolsonaristas batendo continência”, e por dezenas de usuários que repetiram a mesma descrição falsa.

Milhares de pessoas curtiram, compartilharam ou deixaram comentários na publicação original e em outras semelhantes no Twitter, muitos com aparente sentimento de superioridade por desprezar algo que acreditam estar diante delas, mas não está. Pesquise no Twitter por “bolsonaristas continência cloroquina” e verá uma série enorme de republicações dessa imagem, quase sempre com a mesma falsa descrição. O descolamento da realidade é tão grande que nem se pode chamar isso de fake news. É pior. É a submissão completa à narrativa desejada, a esterilização máxima da cognição.

Manifestação contra o lockdown e em favor de tratamento precoce contra o COVID-19, em São Leopoldo, RS, em 26 de março de 2021. Foto: reprodução internet.

Lembro da cena famosa em que Groucho Marx (o Marx do bem) pergunta a uma mulher incrédula com uma aparente quebra da realidade: “você vai acreditar em mim ou eu seus próprios olhos?”. A verdade é que, se você disser o que as pessoas quem ouvir, elas verão até o que não existe. O que mais causa espanto não é que alguns estejam deliberadamente mentindo, ou “propagando narrativa”, mas que a maioria pareça realmente acreditar que viu algo que não está lá ou, pior, não acreditar em seus próprios olhos.

Volto ao que mencionei no início. O problema das narrativas é mais grave do que aparenta, porque se sobrepõe a outro problema, ainda mais nocivo, que é o da infantilização e atrofiamento cognitivo de gerações inteiras. A educação contemporânea, no Brasil e em boa parte do Ocidente, é infestada de professores e intelectuais que, por ação ou submissão, não passam de propagadores de ideias falsas e de falsos profetas. Esse movimento vêm destruindo a capacidade das pessoas de relacionar-se com a realidade, que é afastada em nome de promessas vazias que afagam o indivíduo e o ensinam a interpretar o mundo a partir de seus desejos, sem que se preocupe em subordinar sua interpretação ao confronto muitas vezes desconfortável com os fatos.

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Autor: Cesar Nascimento

Cesar Nascimento é diplomata. Instagram/Twitter/Telegram/LinkedIn/Revue: cesarapenas

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