Brasileiro Quer Se Dar Bem Até No Pix: Em Vez de Pagamentos, Mensagens de Amor

Não é de hoje que brasileiros são vistos em muitos lugares como pouco sérios. Até os próprios brasileiros, ou boa parte deles, acreditam nisso. As razões para essa má fama são as mais diversas, como, por exemplo, a dificuldade avassaladora de manter compromissos. No Brasil, você marca um encontro com uma semana de antecedência e ninguém acredita que você vai aparecer. Sua contraparte vai lhe escrever na véspera, perguntando se você ainda vai; no dia, para perguntar se o horário está mantido; e um pouco antes, para dizer que já está saindo de casa, quando, na verdade, está começando a se arrumar. A única mensagem que você não receberá será aquela em que ela avisa que vai se atrasar, porque jamais lhe ocorreu que você também o estará esperando.

O atraso generalizado no Brasil, que não é senão a completa falta de respeito pelo tempo do outro, manifesta-se claramente em reuniões. A reunião está marcada para às 10:00, mas às 10:15 o anfitrião ainda está dizendo que “vamos esperar só mais cinco minutinhos para ver se chega mais gente”. Quem chegou na hora que se dane. Premia-se o atraso e pune-se a pontualidade.

Mas esse é apenas um aspecto do comportamento do brasileiro que contribui para nossa reputação de indolentes. Outro é a falta de respeito pela ordem, o gosto por condutas que vão além do mero desrespeito, causando dano a terceiros.

Por exemplo, hoje conheci o uso criativo que alguns conterrâneos encontraram para o Pix, o novo sistema de pagamentos adotado no Brasil. Reportagem da CNN mostra que, estimulados por não haver tarifa para enviar pagamentos pelo Pix, alguns usuários entenderam ser perfeitamente aceitável utilizá-lo como aplicativo de mensagens. Agora pensemos bem: um único usuário que começa a utilizar o sistema para envio de mensagens gera uma sobrecarga equivalente a dezenas ou centenas de usuários médios, que enviam pagamentos apenas a cada tantos dias ou semanas. Mais, apostaria que, ao ler a matéria, mais gente adotará a ideia esdrúxula do que a abandonará.

Se fosse exemplo único, não explicaria muito, mas o abuso do social em benefício privado, quando não a “zoação” deliberada, a “trolagem”, são comportamentos naturais entre nós. Quem gosta de jogos multiplayer, por exemplo, já deve ter se deparado com vários servidores em que brasileiros não são bem-vindos. A razão é simples. Muitos brasileiros não sabem brincar. Seu crime mais comum: matam jogadores de sua própria equipe para roubar suas armas ou apenas para se divertir. “É só zoeira, irmão.”

Mais um exemplo. Anos atrás, quando telefonia móvel era ainda (mais) cara, uma operadora lançou uma promoção em que os usuários acumulavam créditos para ligação em proporção ao tempo total de duração das ligações recebidas. Na época, eu trabalhava no Ministério do Desenvolvimento, hoje da Economia. Muitos servidores e terceirizados passaram a telefonar do ministério para seus próprios celulares ou para os de familiares e amigos, deixando a conexão aberta por horas a fio para carregar suas contas com crédito “grátis”. É óbvio que a administração não tardou em descobrir o esquema, quando começaram a chegar as faturas. E é óbvio também que foi muito fácil achar todos ou quase todos os malandros, pois seus números vinham registrados nos extratos. O que não deveria ser óbvio é o desfecho do caso. Alguns reembolsaram o ministério, mas a maior parte dos coitadinhos tinha incorrido em despesas muito elevadas para sua capacidade de pagamento e a coisa acabou morrendo. “Não façam mais isso!” Imagino que a situação tenha se repetido em toda a Esplanada e alhures. Como esperar outra coisa?

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Autor: Cesar Nascimento

Cesar Nascimento é diplomata. Instagram/Twitter/Telegram/LinkedIn/Revue: cesarapenas

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