Duas Visões Antagônicas sobre o Combate à Pandemia de COVID-19

Recentemente, deparei-me com um tweet de uma mãe que publicou uma foto de sua filha chorando, acompanhada de desabafo sobre a amargura de sua família com o isolamento social. “Isso é ensino à distância. Meus filhos estão sofrendo. Minha família está sofrendo. Meu coração está completamente partido. Isso não é sustentável. Não ouse comentar que ‘seus filhos estão ótimos’ ou que ‘todos precisamos nos sacrificar para manter as pessoas seguras’, porque VOCÊ não conhece as MINHAS circunstâncias.”

A resposta que aparecia em destaque era de outra mãe, que dizia que o sacrifício era necessário para evitar que outras pessoas morressem por COVID-19 e que a atitude da primeira mãe era egoísta. “Sinto muito. Meus filhos têm feito ensino remoto o ano inteiro. É uma porcaria. Mas você sabe o que é pior? Vovó, vovô ou seu professor morrendo de COVID. Não é só você que importa (it’s not just about you)”, escreveu a segunda mãe.

Tweets mostram duas visões antagônicas sobre o combate à pandemia de CODIV-19.
Duas visões antagônicas. De um lado, a socialização completa da responsabilidade pelo combate à pandemia de COVID-19. De outro, a ideia de que as responsabilidades devem ser diferenciadas, pois há outros valores a proteger.

Essa troca de opiniões e os comentários que a seguiram pareceram-me bom exemplo para ilustrar o que entendo ser um dos fundamentos ideológicos por trás das duas grandes correntes de opinião sobre como conduzir a resposta à pandemia de COVID-19. Em um campo estão aqueles favoráveis ao fechamento das economias e a restrições abrangentes das liberdades de iniciativa e de locomoção. “A economia a gente vê depois,” proclamam esses. Em outro, aqueles que entendem ser necessário pesar custos e benefícios, e impor limitações a atividades sociais e econômicas de forma calibrada, buscando minimizar os impactos econômicos, sociais e psicológicos das restrições sanitárias. “A cura não pode ser pior do que a doença,” defendem esses.

As correlações aparentes entre apoiadores de medidas de alcance horizontal — “fique em casa”, quarentena de longa duração, fechamento do comércio, lockdown etc. — e convicções políticas à esquerda, de um lado, e apoiadores de medidas verticais — isolamento de vulneráveis, restrições condicionais a atividades econômicas e sociais etc. — e posições políticas à direita, de outro, não são acidentais. Elas refletem concepções divergentes a respeito da forma como a sociedade deve se organizar, como equilibrar valores conflitantes e, consequentemente, sobre quais devem ser as obrigações de cada indivíduo no combate à pandemia. Refletem também visões incompatíveis sobre como avaliar e equilibrar os custos de curto e longo prazos de políticas públicas alternativas.

Aqueles de perfil progressista, ou coletivista, inclinam-se a demandar que todos os indivíduos sejam obrigados a cumprir os objetivos definidos por esse grupo como prioritários. De um lado, exige-se de cada indivíduo o comprometimento integral com o bem-estar pessoal de todos os demais (como a segunda mãe), ao passo que aqueles de perfil liberal entendem que cada um tem de contribuir segundo uma distribuição racional de custos e benefícios, baseada numa avaliação dos trade offs entre os diferentes valores a ser preservados e os sacrifícios impostos (como a primeira mãe).

Photo by Markus Spiske on Pexels.com

Alinhamentos semelhantes manifestam-se também nas posições individuais sobre vacinação. Aqueles de persuasão coletivista e socializante inclinam-se em favor de sua obrigatoriedade, julgando que todos devem submeter-se ao que for determinado pelo Estado, independentemente de suas próprias considerações pessoais sobre riscos e benefícios, mesmo que não sejam os mesmos para todos. Já os de convicção liberal preferem que a aplicação da vacina seja objeto de decisão voluntária, pois a vacinação dos que estão em situação de risco já resolveria em grande medida o problema. Note-se que isso não equivale a ser contra a vacinação ou mesmo que os defensores dessa posição não pretendam ser vacinados.

Além do componente ideológico, a assimetria na avaliação de riscos é influenciada pelas características epidemiológicas da pandemia em curso, em que o vírus ameaça de forma diferente os vários grupos etários. As percepções individuais seriam outras se a COVID-19 afetasse a todos de forma semelhante. Da perspectiva de pessoas idosas ou com saúde frágil, o risco de morte apresentado pela COVID-19 é muito grande e qualquer risco envolvido na vacinação parece aceitável. Da perspectiva de pessoas jovens e saudáveis, os riscos apresentados pelo coronavírus são muito pequenos, levando esse grupo a dar mais atenção a riscos envolvidos na vacinação, mesmo que pouco significativos, especialmente pela falta de clareza sobre a real eficácia das vacinas atualmente oferecidas.

Assim, mais do que de uma disputa entre ciência e obscurantismo, a polarização no debate sobre a resposta à pandemia resulta de assimetrias na percepção de risco pessoal dos indivíduos e, acima de tudo, de convicções ideológicas que condicionam a forma como se encara a vida em sociedade, como se deve coordenar a proteção de valores por vezes conflitantes, e como se pode equilibrar liberdades e obrigações individuais com repercussão sobre o bem comum.

Inscreva-se em minha lista:

Receba em primeira mão os melhores artigos e análises sobre política, cultura e sociedade.

Assinatura recebida!

Verifique seu e-mail e confirme a assinatura do boletim informativo.

Autor: Cesar Nascimento

Cesar Nascimento é diplomata. Instagram/Twitter/Telegram/LinkedIn/Revue: cesarapenas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s