Quem é Fascista, Camarada?

Como todos podem ver claramente, o debate político no Brasil de hoje está contaminado por grande hostilidade da militância de esquerda contra apoiadores do governo Bolsonaro e conservadores em geral. Inconformados com a derrota eleitoral, causada em grande medida pela corrupção e desgoverno generalizados nas gestões petistas, militantes profissionais, artistas desprestigiados, intelectuais sem pés no chão e outras classes de influenciadores progressistas têm incentivado seus seguidores a tratar os que não partilham de sua visão de mundo como fascistas, propagadores de ódio e mentiras, etc.

Eleitor depositando voto em urna
Foto: Element5 Digital on Pexels.com

Imagino que a maioria dos militantes e fellow travelers realmente não fazem a menor ideia do que estão dizendo. Apenas ecoam os gritos que escutam, como torcedores hipnotizados pela vibração da arquibancada. Nesse sentido, são almas honestas. Mas há aqueles que sabem que acusam seus adversários daquilo que querem ser. Sabem que não lutam por democracia ou por que todos sejam livres e iguais em direitos, mas pela “liberdade” que Marx e Lenin queriam nos impor. Deixemos Lenin falar:

“a liberdade, quando é oposta à emancipação do trabalho do jugo do capital, é um engano. E qualquer um de vocês que tenha lido Marx — penso até mesmo em qualquer um que tenha lido ao menos uma exposição popular de Marx — sabe que Marx dedicou a maior parte de sua vida e de seus trabalhos literários e a maior parte das suas pesquisas científicas precisamente a satirizar a liberdade, a igualdade, a vontade da maioria”.

Lenin, Sobre “Democracia” e Ditadura, artigo publicado no Pravda, em 1919.

Enquanto gritam “fascistas!”, usam com largueza de expedientes como “cancelamentos” e “assassinato de reputações” — que não são outra coisa senão injúria e difamação levadas a cabo de forma coletiva — ou de estratégias intimidatórias como a do Sleeping Giants, que busca constranger publicamente empresários a cortar o financiamento de indivíduos e veículos conservadores. Alguém de fato acredita que uma organização como o Sleeping Giants Brasil não tem financiamento e objetivos políticos? Será que é mesmo apenas um grupo de cidadãos inconformados com a propagação de fake news e que aproveita suas horas vagas para produzir material de propaganda e intimidar empresários?

Será que esses militantes acreditam que a dona Maria, que trabalha limpando banheiros em um posto de gasolina no interior do país, e que votou em Jair Bolsonaro para presidente por que estava escandalizada com a roubalheira do PT, será que realmente acreditam que ela é fascista?  Será que ela propaga ódio ao continuar apoiando o governo? Será que foi cooptada pelo vale-corona e que só era verdadeiramente livre quando o PT lhe prometia aumentar seu Bolsa Família?

O que vejo é bem diferente do cenário alardeado pelos slogans e palavras de ordem que gritam os militantes esquerdistas nas ruas e redes sociais. Vejo muitos cometerem os “crimes” de que acusam seus desafetos. Vejo frustração e rancor motivando o desejo de suprimir o dissenso, de calar quem discorda. Vejo gente que diz defender liberdade de expressão, mas que celebra quando seus adversários são desmonetizados ou censurados. E vejo a cegueira daqueles que acreditam que o caminho mais fácil para realizar sua utopia é o expurgo moral — ou, quem sabe, físico? — de seus opositores. Incautos, não percebem que esse é o caminho do totalitarismo, que a disputa pela primazia de visões de mundo continua depois que os primeiros indesejáveis são tirados de cena, e que aqueles que apoiaram os expurgos serão, quando chegar sua vez, também expurgados. A História é cheia de exemplos.

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Autor: Cesar Nascimento

Cesar Nascimento é diplomata. Instagram/Twitter/Telegram/LinkedIn/Revue: cesarapenas

2 pensamentos

  1. Tenho acompanhado o trabalho da “intelligentsia”, no Brasil e no mundo, em seu mister de sufocar toda e qualquer manifestação contrária a suas ideias e, paradoxalmente, acusar seus adversários de autoritários. Veja-se o caso da jogadora Carol Solberg, que se manifestou contra Bolsonaro. A advertência que recebeu do STJD foi criticada como sendo um exemplo de censura. Quando, porém, atletas cubanos manifestaram sua insatisfação com o regime castrista, os mesmos intelectuais, artistas, jornalistas e gênios ponderaram que a arena de esportes não é lugar para se fazerem manifestações políticas; ou, estrategicamente, apenas silenciaram-se. Para as esquerdas, conceitos como liberdade, direitos humanos, democracia, devem ser relativizados em função dos sujeitos que usam tais conceitos como predicados. Nicolás Maduro defende a liberdade quando fortalece milícias pró-governo; Jair Bolsonaro ataca a liberdade quando se relaciona com milicianos. Armar a população pode ser exercício de liberdade ou seu aniquilamento, dependendo de quem a população armada irá apoiar. A relativização estratégica de conceitos é um artifício tosco e não surpreende quando usada por indivíduos desprovidos de refinamento intelectual. Quando, porém, é praticada pela “intelligentsia”, revela não a ausência de raciocínio, mas a inequívoca sordidez de caráter.

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