Paulo Freire e a Execução Libertadora

Em Pedagogia do Oprimido, ao comentar as memórias de Che Guevara sobre a revolução cubana, Paulo Freire justifica o tratamento dado pelos guerrilheiros a desertores do movimento revolucionário ou aos populares que não se submetessem, o que rotineiramente significava sua execução.

Na visão de Freire, não se pode confiar plenamente nem mesmo naqueles em nome de quem se pretende fazer a revolução. “Desconfiar dos homens oprimidos,” diz Freire, “não é, propriamente, desconfiar deles enquanto homens, mas desconfiar do opressor ‘hospedado’ neles.” O temor de Freire é de que alguns dos ‘oprimidos’ não apenas não aceitem juntar-se à luta revolucionária, mas a rejeitem, e que “seu medo natural à liberdade pode levá-los à denúncia, não da realidade opressora, mas da liderança revolucionária.” Freire diz que no relato de Guevara sobre a guerrilha em Sierra Maestra “se comprovam estas possibilidades, não apenas em deserções da luta, mas na traição mesma à causa.” Ao desconfiar dos homens que afirma defender, o revolucionário “não está rompendo a condição fundamental da teoria da ação dialógica. Está sendo, apenas, realista.” Por essas razões, Paulo Freire exonera Guevara de responsabilidade por determinar a execução de seus próprios companheiros, pois é preciso “manter a coesão e a disciplina do grupo,” e que coube a Che Guevara apenas “reconhecer a necessidade de punição” do desertor.

Carro antigo no centro de Havana
Carros antigos e pedestres no centro de Havana. Foto: Cesar Nascimento

Freire prossegue em sua justificativa dos crimes dos revolucionários, cujas vítimas são, na verdade, culpadas, e afirma que Guevara “reconhece também certas razões explicativas da deserção. Uma delas, diremos nós, talvez a mais importante, é a ambiguidade do ser do desertor.” Freire explica essa “ambiguidade” afirmando que o oprimido “hospeda” o opressor dentro de si. Justifica-se assim a execução do “oprimido” que não se submete ao jugo do revolucionário, pois é, ele também, um “opressor”.

Para Paulo Freire, as atrocidades dos guerrilheiros são fruto do amor pelos oprimidos, e “o que não expressou Guevara, talvez por sua humildade, é que foram exatamente esta humildade e a sua capacidade de amar que possibilitaram a sua ‘comunhão’ com o povo”.

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Autor: Cesar Nascimento

Cesar Nascimento é diplomata. Instagram/Twitter/Telegram/LinkedIn/Revue: cesarapenas

5 pensamentos

  1. Fala César. Mas nos EUA, no Brasil e na grande maioria dos países ocidentais e orientais “traição” à Pátria também não é passível de pena de morte? Claro, discordância de opinião não, mas traição… Qualquer lugar do mundo.

    1. Salve, Luis!

      Mesmo que a guerrilha fosse a pátria, abandoná-la não deveria ser traição. Sabotá-la ou lutar contra ela, sim. O Brasil, por exemplo, oferece um caríssimo sistema de assistência consular a nacionais que deixaram o país, muitos dos quais pretendem jamais voltar. Não os consideramos traidores por abandonar o barco. Ao contrário, entendemos que há razões e desejos legítimos que os levam a isso. Houve mesmo civilizações em que o exílio era uma das piores punições, que muitos julgavam pior do que a morte. Penso aqui nos gregos.

      Mas a guerrilha não era a pátria, e abandoná-la ou não querer colaborar com ela não era traição, mas justamente recusa a trair a pátria de todos os que não eram guerrilheiros. Não era outra a razão por que os guerrilheiros puniam a resistência com morte, pois tinham diante deles uma pátria existente, real, cuja lealdade precisavam minar, e o medo era ferramenta eficaz.

      E não esqueçamos de que as execuções eram muitas vezes sumárias, e sempre sem um processo legal justo e imparcial. Arbitrariedade e violência, em suma.

      Por fim, quando a guerrilha finalmente se instalou como governo, criminalizou o exílio.

      1. Ok, mas aí vira uma discussão semântica e jurídica do que seria traição. Que é evidentemente um conceito subjetivo.

      2. A comparação entre o serviço consular oferecido aos compatriotas em países estrangeiros em tempos de paz está anos-luz de uma deserção numa guerrilha em plena revolução a fogo e sangue. Essa comparação é, no mínimo, desonesta, para não dizer burra.

  2. Acredito que precisamos considerar o contexto, essa é uma situação de guerra/guerrilha em que muitas praticas utilizadas em situações de paz não se aplica.

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